Pastelaria A Bijou de Cascais
VoltarNo coração da vila de Cascais, na emblemática Praça Camões, um silêncio amargo tomou o lugar do aroma a café acabado de torrar e a bolos frescos. A Pastelaria A Bijou de Cascais, uma instituição com quase 95 anos de história, fechou portas no final de 2024, deixando um vazio na memória coletiva de residentes e visitantes. O que foi em tempos um ponto de encontro obrigatório, sinónimo de tradição e qualidade, tornou-se um estudo de caso sobre os desafios que o comércio histórico enfrenta. Este artigo mergulha nas memórias, nos testemunhos e nos factos para perceber o que fez da Bijou uma joia e o que, no fim, lhe tirou o brilho.
Um Legado de Sabor e Pioneirismo
Inaugurada em 1929, a Bijou não era apenas mais uma padaria; era parte integrante da própria identidade de Cascais. A sua história confunde-se com a do centro histórico, tendo sido, por exemplo, o primeiro estabelecimento a instalar uma esplanada no conhecido Largo de Camões, um gesto pioneiro que moldou a vivência social daquela praça. Durante décadas, entrar na Bijou era uma garantia de qualidade, um ritual para muitos cascalenses que ali iam para o pequeno-almoço ou para o lanche.
O seu renome foi construído sobre uma base sólida de pastelaria artesanal e receitas que resistiram ao tempo. A casa era famosa pelos seus doces regionais, com especial destaque para duas iguarias:
- Areias de Cascais: Pequenos biscoitos amanteigados que, como o nome sugere, se desfazem na boca, cuja origem se perde no tempo, sendo um verdadeiro património gastronómico da região.
- Nozes de Cascais: Um doce de origem conventual, feito à base de gemas, açúcar e amêndoa, com uma cobertura estaladiça e uma noz no topo. Uma receita secular que a Bijou preservou com mestria.
Para além destes ex-líbris, a Bijou era uma referência noutras tradições. Clientes recordam com saudade o Bolo Rei de Natal, descrito como divinal e recheado de frutos secos, uma compra obrigatória para muitas famílias na época festiva. Esta era a Bijou no seu auge: um bastião de doces tradicionais portugueses, onde o fabrico próprio era sinónimo de excelência.
A Renovação e as Primeiras Fissuras na Joia
Nos últimos anos, a Bijou passou por uma grande transformação. O espaço foi alvo de obras de remodelação e expansão, tomando conta de uma área adjacente que antes era um salão de jogos. A intenção poderia ser modernizar e aumentar a capacidade, mas para muitos dos clientes mais antigos, esta mudança marcou o início do fim. Uma cliente de longa data lamenta a transformação: o que era uma pastelaria serena e com uma clientela fiel, tornou-se um local ruidoso, desorganizado e focado quase exclusivamente no turista. A sensação de "casa" deu lugar à confusão de um espaço que parecia ter perdido a alma.
Esta perda de identidade foi acompanhada por uma quebra notória naquilo que sempre fora um pilar da casa: o serviço. As críticas começaram a acumular-se e pintam um quadro preocupante. Vários relatos mencionam um atendimento fraco, com funcionários que não falavam bem português e demonstravam uma atitude arrogante. Um cappuccino derramado sem um pedido de desculpas, cafés servidos frios por já estarem prontos no balcão, e uma sensação geral de desleixo tornaram-se queixas recorrentes. Numa das críticas mais contundentes, uma cliente descreve uma tosta mista servida como um pão ensopado em manteiga, mole e com orégãos, uma descaracterização total de um pedido simples, enquanto os funcionários conversavam e brincavam, alheios ao que serviam.
O Dilema da Modernidade: Entre o Brunch e a Tradição
A Bijou tentou navegar as águas da modernidade. Para além da sua oferta tradicional, introduziu um menu de brunch com opções cosmopolitas como ovos Benedict, tostas de abacate e panquecas, incluindo até opções vegetarianas. Esta dualidade poderia ter sido a sua força, mas parece ter acentuado a sua crise de identidade. Enquanto um cliente elogiava a excelência do brunch, outro lamentava que um doce clássico como o "beijinho" já não estivesse fresco.
Até as suas especialidades da casa foram alvo de reinvenção. O "Jesuíta", que numa entrevista televisiva com Michael Portillo o proprietário descreveu como uma versão de amêndoa de um clássico e o seu best-seller, foi criticado por clientes por não seguir a receita tradicional, faltando-lhe o creme de ovo. O mesmo aconteceu com o seu Pastel de Nata, que levava um toque de limão por cima. Eram estas inovações um passo em frente ou um desrespeito pela tradição que a consagrou? A resposta parece residir no descontentamento dos clientes que sentiam que, na tentativa de agradar a um novo público, a pastelaria estava a alienar a sua base leal.
Crónica de um Fim Anunciado
O encerramento definitivo em janeiro de 2025 foi o culminar desta espiral descendente. A razão oficial, avançada pelo sócio-gerente Pedro Canelas, que dedicou 45 anos da sua vida à casa, prende-se com a sua idade, um esgotamento e a necessidade de abrandar. O plano era fazer o trespasse do negócio, mas entraves burocráticos com o licenciamento camarário bloquearam o processo. Como o despedimento coletivo dos funcionários já estava em marcha, a única saída foi fechar as portas por tempo indeterminado.
No entanto, é impossível dissociar esta justificação oficial da realidade sentida pelos clientes. Uma casa com uma clientela insatisfeita e uma reputação em declínio é, inevitavelmente, um negócio mais frágil. A pressão sobre a gerência aumenta, o cansaço acumula-se e a viabilidade a longo prazo fica comprometida. As dificuldades burocráticas podem ter sido o golpe final, mas as feridas internas já eram profundas. A transformação de um ponto de encontro local numa "bagunça" para turistas, como descreveu uma cliente, foi um sinal de que a essência da Bijou se estava a perder muito antes de as portas se fecharem.
Conclusão: A Memória de um Símbolo de Cascais
A história da Pastelaria A Bijou de Cascais é um conto agridoce sobre identidade, mudança e a importância da consistência. Ficará para sempre na memória como a casa das Areias e das Nozes de Cascais, a pioneira da esplanada na praça e o local de inúmeros pequenos-almoços e lanches que marcaram gerações. O seu fecho é mais do que o fim de uma padaria; é o desaparecimento de uma referência histórica e uma lição valiosa para o comércio tradicional. Mostra que, por mais forte que seja um legado, nenhum negócio pode sobreviver à perda da sua identidade e ao desrespeito pelos clientes que o ergueram. Cascais ficou, sem dúvida, mais pobre.